A função do Ministério Profético

 


A função do Ministério Profético 

por Walter Brueggemann


    Ao estudar os profetas de Israel, deve-se levar em conta tanto a evidência encontrada no Antigo Testamento quanto a situação contemporânea da igreja. O que entendemos sobre o Antigo Testamento precisa, de alguma forma, estar conectado com as realidades da igreja de hoje.

    Nossa consciência tem sido reivindicada por falsos campos de percepção e por sistemas idólatras de linguagem e retórica.

    A causa interna dessa aculturação é a nossa perda de identidade causada pelo abandono da tradição da fé.

    Nossa cultura de consumo é organizada contra a história. Há uma depreciação da memória e uma ridicularização da esperança, o que significa que tudo deve ser mantido no agora, seja em um “agora urgente” ou em um “agora eterno”.

    De qualquer forma, uma comunidade enraizada em memórias energizantes e convocada por esperanças radicais é tida como um fenômeno curioso e uma ameaça a essa cultura.

    A igreja não terá poder para agir ou acreditar até que recupere sua tradição de fé e permita que essa tradição seja a sua principal saída dessa aculturação.

    Não se trata de um clamor pelo tradicionalismo, e sim de uma constatação de que a igreja não tem nada mais urgente do que a reapropriação da sua memória em todo o seu poder e autenticidade.

    É tarefa do ministério profético promover uma conexão eficaz entre as reivindicações da tradição e a situação de aculturação. Ou seja, o profeta é chamado a ser um filho da tradição, alguém que a levou a sério na formação do seu próprio campo de percepção e sistema de linguagem e que está tão à vontade nessa memória que os pontos de contato e a incongruência com a situação da igreja na cultura podem ser discernidos e articulados com a devida urgência.

    O equívoco conservador predominante, evidente em vários adesivos de para- choque, é que o profeta é um adivinho, um preditor do que está por vir (quase sempre, más notícias), normalmente com referências específicas a Jesus. Embora não se queira negar totalmente essas facetas da prática profética, parece que há nelas uma espécie de reducionismo mecânico e, portanto, insustentável.

    Embora os profetas sejam, de certa forma, preditores do futuro, sua preocupação é com o futuro na proporção em que ele afeta o presente.

    A tarefa do ministério profético é nutrir, fomentar e evocar uma consciência e uma percepção alternativas à consciência e percepção da cultura dominante que nos rodeia.

    A principal função do ministério profético não é a de abordar questões sociais específicas, mas de desafiar, a tempo e fora de tempo, um problema mais duradouro e resiliente: o problema de termos a nossa vocação alternativa cooptada e domesticada.

    Nessa forma de pensar, a palavra-chave é alternativa, e cada ministro profético e cada comunidade profética deve lutar com o que o termo sugere.

    Portanto, meu clamor prático é que cada ação de um ministério profético deve contribuir para evocar, formar e reformar uma comunidade alternativa. Isso se aplica a cada faceta e a cada prática do ministério.

    Sugiro que a cultura dominante, hoje e sempre, é grosseiramente acrítica, incapaz de tolerar críticas sérias e fundamentais, e fará de tudo para impedi-las. Ademais, a cultura dominante é uma cultura desgastada, quase incapaz de ser seriamente energizada para as novas promessas de Deus.

    A tarefa do ministério profético é manter a crítica e a energização unidas, pois argumento que tanto uma quanto a outra, por si sós, não são fiéis à nossa melhor tradição.

    A profecia nasce precisamente quando a emergência da realidade político-social é tão radical e inexplicável que sua causa não é nada menos do que teológica.

    Uma causa teológica sem uma realidade político-social só interessa a um religioso profissional, uma vez que não estamos preocupados com uma realidade político-social sem uma causa teológica. No entanto, é a interação entre uma causa e a outra que nos leva a falar — e a questionar — sobre o chamado ao ministério profético.

Brueggemann, Walter. A imaginação profética (Portuguese Edition) (p. 48-54). Thomas Nelson Brasil. Edição do Kindle.

@osprofetas_ 




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