O Clube Santo


 


O Clube Santo

Wesley Duewel

@osprofetas_

    O século 18 foi um tempo de grandes trevas morais e espirituais, inquietação política e carências sociais em muitas partes do mundo. Na Inglaterra, o deísmo teve efeitos devastadores, e a autoridade da Bíblia ficou abalada no país inteiro. Eram abundantes a indiferença espiritual e o ceticismo, e a liberdade havia se degenerado em licenciosidade. A religião fora esvaziada da sua espiritualidade e do seu poder. Vista com desprezo, era no máximo um código de ética. As massas eram intocadas pela igreja. Aqui e acolá havia alguns ministros piedosos e fiéis, mas o clero, em grande parte, era constituído de líderes de fachada que, além de não ensinar a doutrina da salvação pela fé, ainda se opunham a ela. Muitos eram conhecidos por hábitos de embriaguez. Às vezes até mesmo lideravam os tumultos contra os avivalistas.

    Nos círculos mais altos da sociedade, pessoas zombavam quando a religião era mencionada. A grande maioria dos estadistas de renome era descrente, e eles eram conhecidos por sua vida grosseiramente imoral, que escarnecia do casamento. As famosas cartas de lorde Chesterfield para educar seu filho incluíam instruções de como seduzir as mulheres.

    Muitos do clero, sustentados pelo Estado, não viviam perto das igrejas para as quais tinham sido designados. Recebiam seus proventos, mas alguns jamais viram sua paróquia. Certo bispo gabou-se de que só teria ido uma vez à sua paróquia — vivia habitualmente à beira da lagoa. Os cultos nas igrejas estavam em declínio, os prédios das igrejas caindo aos pedaços, a adoração era negligenciada. Não mais que quatro ou cinco membros da Câmara dos Comuns frequentavam a igreja. Certa vez, o lorde Bolingbrooke repreendeu um grupo de pastores por seu estilo de vida, dizendo que era “o maior milagre do mundo” o cristianismo sobreviver quando estava entregue nas mãos de “homens tão anticristãos quanto os senhores”.

    O povo comum na Inglaterra antes do avivamento era, em sua maioria, gente ignorante e espantosamente cruel. As escolas existiam somente para a elite. Poucas cidades tinham qualquer espécie de força policial, e a ralé saqueava e pilhava Londres e Birmingham, queimando as casas, escancarando as cadeias e aterrorizando o povo.

    Os criminosos ficaram cada vez mais ousados e intimidavam a população. Uma em cada três casas em Londres vendia bebida forte, e bares convidavam o público a “embebedar-se por uma moeda, ou beber até cair por duas patacas, e palha sobre a qual deitar até acabar o torpor da bebedeira”.

    Os moradores de Londres raramente viajavam depois do anoitecer, até mesmo para os subúrbios mais próximos, a não ser com uma escolta armada. Os contrabandistas operavam nas regiões costeiras, e bandos armados levavam as mercadorias até Londres. Até mesmo as atividades esportivas eram brutais: brigas de galo, touradas, brigas de ursos e selvagens rinhas de buldogues.

    A despeito da força policial ineficaz, a justiça criminal era implacável. Havia pelo menos 160 atos declarados como “passíveis de pena de morte sem benefício de clero” — ou seja, morte imediata. Derrubar uma cerejeira, surrupiar alguma coisa da mão de um homem e fugir com ela, roubos de quarenta xelins ou mais de uma casa, roubar de uma loja o valor de cinco xelins — até 1800, todas essas coisas levavam à pena de morte. Há documentação de que quarenta a cinquenta pessoas eram enforcadas a cada sessão dos tribunais.

    As cadeias estavam cheias, eram escuras e imundas, com o cheiro ofensivo dos esgotos abertos que corriam pelas celas das prisões. Não havia roupa de cama e faltava água, e oferecia-se apenas dois pedaços de pão por pessoa ao dia. Muitos prisioneiros morriam em seus calabouços sujos e sombrios. Foi nessas prisões que Wesley e outros membros de seu grupo começaram a ministrar no início do período do avivamento.


O Clube Santo


    No início da década de 1730, os irmãos Wesleys juntaram alguns colegas estudantes no quarto de John no Lincoln College, Universidade de Oxford, buscando sinceramente a santidade. A membresia passou a ser de quinze pessoas, nunca mais que 25. Depois que John deixou Oxford em 1735, o grupo se desintegrou. Inicialmente, ele foi chamado de “Clube Santo”. Esses jovens buscavam viver sob rigorosas regras, no intuito de alcançar a santidade. Havia um método de autoexame, toda semana participavam da comunhão, jejuavam a cada quarta e sexta-feira em imitação à igreja primitiva, e visitavam regularmente os prisioneiros e enfermos. Procuravam diligentemente agradar a Deus e ser santos com seus métodos, pelo que muitas pessoas começaram a chamá-los de “metodistas”.

    John e Charles Wesley foram à América servir aos indígenas e colonos, mas obtiveram pouco sucesso. Seus altos padrões de vida santa e sua pregação direta contra os pecados mais populares fazia as pessoas fecharem o coração contra eles. Voltaram para a Inglaterra após um ano e meio. Mas Deus viu esses corações famintos e sinceros. George Whitefield, Charles Wesley e, em 24 de maio de 1738 o próprio John Wesley, obtiveram a certeza de que seus pecados foram perdoados, e a partir de então começaram a ensinar e pregar a salvação imediata pela fé.

    Apesar da reforma espiritual de dois séculos antes, a possibilidade imediata de salvação ou de certeza da salvação era desconhecida pelas igrejas. Quando os Wesleys e Whitefield começaram a pregar essa doutrina, foram desprezados e quase excluídos da igreja, apesar de serem ministros ordenados pela Igreja Anglicana. Essa agora era sua mensagem e testemunho ardente, e eles a proclamaram por toda parte.

    No dia de ano-novo de 1739, John e Charles Wesley, George Whitefield e mais quatro membros do Clube Santo, com mais sessenta pessoas de pensamento semelhante, promoveram uma “festa de amor” em Londres, na Fetter Lane.

    Cerca de três horas da manhã, quando continuávamos instando em oração, veio sobre nós o poder de Deus de maneira poderosa, a ponto de muitos gritarem, não se contendo de alegria, e outros caírem ao chão (vencidos pelo poder de Deus). Logo que nos recobramos um pouco daquele espanto e senso de admiração da presença de sua majestade, rompemos a uma só voz: “Louvamos- te, ó Deus; reconhecemos que só tu és o Senhor”

Esse acontecimento tem sido chamado de o Pentecostes metodista.

    Cinco noites depois disso, oito desses “metodistas” oraram e conversaram até altas horas, saindo de lá “convictos de que Deus estava prestes a fazer grandes coisas”. Em outra noite dessa mesma semana, um grupo se reuniu e passou a noite inteira em oração.

    Daquele dia em diante, Whitefield pregou com grande unção e poder. Contava apenas 22 anos de idade, mas sempre que falava as multidões se ajuntavam para ouvi-lo. As suas salas estavam cheias de estudantes de Oxford. Ele escreveu: “Durmo muito pouco. Tivesse eu mil mãos, empregá-las-ia todas. Quisera ter mil línguas para louvá-lo. Ele ainda opera em mim mais e mais”.

    Quando Whitefield pregou na igreja de Bermondsey em fevereiro de 1739, a multidão era tão grande que até o quintal ficou cheio. Deus conduziu Whitefield a ir para fora a fim de pregar. Em vestes clericais, Whitefield pregou seu primeiro sermão ao ar livre a uma congregação de duzentas pessoas, e começou um novo dia na história do evangelho.

    As multidões se avolumavam a cada dia, até chegar a umas 20 mil pessoas reunidas. Alguns dos ricos ficavam sentados em suas carruagens, e outros, em seus cavalos. Algumas pessoas subiam nas árvores, e por toda parte as pessoas se juntavam pelo terreno para ouvir a pregação de Whitefield. Por vezes, todos eram levados às lágrimas, tomados pelo Espírito de Deus.

L. Duewel, Wesley. Fogo do avivamento: O avivamento de Deus através da história e sua aplicação para hoje (Portuguese Edition) (p. 43). Editora Hagnos. Edição do Kindle.



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