O Último discurso de Moisés

 


O Último discurso de Moisés 

Flávio Josefo 



    Quando faltavam apenas trinta dias para se dizer que eram passados quarenta anos desde a saída do Egito, Moisés mandou reunir todo o povo no lugar onde está agora a cidade de Abilã, à margem do rio Jordão, terra muito rica em palmeiras, e falou-lhes deste modo: “Companheiros de meus longos trabalhos, com quem passei tantos perigos, tendo chegado à idade de cento e vinte anos, é tempo de deixar o mundo. Deus não quer que eu vos assista nos combates que tereis ainda de sustentar, depois de passardes o Jordão. Quero empregar esse pouco de vida que me resta para fortalecer a vossa felicidade, quanto aos cuidados que dependem de mim, a fim de obrigar-vos a conservar o afeto pela minha memória. Terminarei os meus dias com alegria, fazendo-vos conhecer em que devereis firmar a vossa felicidade e com que meios podereis conseguir uma semelhante para vossos filhos. E, como não aceitarias fé às minhas palavras? Pois não há testemunho pelo qual eu não me tenha esforçado em dar-vos que não fosse pelo interesse em vosso bem, e vós sabeis que os sentimentos de nossa alma jamais são tão puros como quando ela está prestes a abandonar o corpo.

    Filhos de Israel, gravai fortemente em vosso coração que a única e verdadeira felicidade consiste em se ter a Deus como favorável. E Ele só pode concedê-la aos que dela se tornam dignos por sua piedade. É em vão que os maus se vangloriam na esperança de a conquistar. Mas se vos tornardes como Ele o deseja, o que vos exorto a ser, depois de terdes recebido as suas ordens, sereis felizes sempre, a vossa prosperidade será invejada por todas as nações do mundo, possuireis em definitivo o que já conquistastes e bem depressa entrareis na posse do que vos resta ainda conquistar. Cuidai somente em prestar a Deus uma fiel obediência: não prefirais outras leis às que vos dei, por sua ordem. Observai-as com grande cuidado e evitai principalmente mudar alguma coisa por desprezo criminoso ao que se refere à religião. Como tudo é possível aos que Deus ajuda, tornar-vos-eis os mais temíveis de todos os homens. Se seguirdes este conselho, sobrepujareis a todos os vossos inimigos e recebereis durante toda a vossa vida as maiores recompensas que a virtude pode conceder.

    A mesma virtude será a principal, porque é por meio dela que se obtêm todas as outras e somente ela vos pode tornar felizes e granjear-vos reputação e glória imortais entre as nações estrangeiras. Eis o que tendes motivo de esperar se observardes religiosamente — sem cessar e sem jamais permitir que sejam violadas — as leis que recebestes.

    Saio deste mundo com a consolação de vos deixar em grande prosperidade e recomendo-vos à sábia orientação de vossos chefes e magistrados, que jamais deixarão de ter por vós o máximo cuidado. Deus, porém, deve ser o vosso principal apoio. É somente a Ele que sois devedores de todos os benefícios que recebestes até agora por meu intermédio, e Ele não vos deixará de proteger, contanto que não deixeis de reverenciá-lo e de pôr toda a vossa confiança em seu auxílio. Tereis sempre pessoas honestas para vos dar excelentes instruções, como o sumo sacerdote Eleazar, Josué, os Senadores e os chefes de vossas tribos. Mas é necessário que lhes obedeçais com prazer, lembrando-vos de que aqueles que bem souberam obedecer saberão mandar quando forem elevados a cargos e dignidades. Assim, não imagineis, como fizestes até agora, que a liberdade consiste em desobedecer aos vossos superiores, o que é uma grande falta, da qual vos deveis absolutamente corrigir. Evitai também deixar-vos levar pela cólera contra eles, como fizestes tantas vezes para comigo, pois não vos podereis ter esquecido de que me pusestes em perigo de vida muito mais que a todos os nossos inimigos. Falo assim não para vos fazer repreensões ou censuras. Como desejaria eu, no tempo em que estou para me separar de vós, contristar-vos pela lembrança daquilo que já passou, se nem mesmo então manifestei o menor ressentimento, quando as coisas se passavam? Aconselho-vos, no entanto, a vos tornardes mais sensatos para o futuro, porque não saberia fazer-vos compreender o quanto vos importa não murmurar contra os vossos superiores quando, depois de terdes passado o Jordão e vos tornado senhores da província de Canaã, vos sentirdes repletos de todas as espécies de bens. Pois, se perderdes o respeito que deveis a Deus e abandonardes a virtude, Ele também vos abandonará e tornar-se-á vosso inimigo.

    Perdereis com vergonha, pela vossa desobediência, o país que conquistastes com o seu auxílio. Sereis levados escravos para todas as partes do mundo, e não haverá lugar na terra ou no mar onde não se conheçam os sinais de vossa escravidão. Não será então mais tempo de vos arrependerdes, porque não observastes as suas santas leis. E, a fim de não cair nessa desgraça, não deixeis com vida um só de vossos inimigos depois de os terdes vencido. Crede que é da máxima importância matá-los todos, sem poupar um sequer, porque de outro modo podereis, pelas relações que tiverdes com eles, ser levados à idolatria e ao abandono das leis de vossos antepassados.

    Ordeno-vos também o emprego do ferro e do fogo para destruir de tal modo todos os Templos, altares e bosques consagrados aos seus falsos deuses que deles não reste o menor vestígio. É o único meio de vos conservardes na posse dos bens que desfrutareis. E, para que nenhum de vós se deixe levar para o mal, por ignorância, escrevi por ordem de Deus as leis que deveis observar e a maneira como deveis proceder, tanto nos negócios públicos quanto nos particulares. Se as observardes inviolavelmente, sereis os mais felizes de todos os homens.

    Assim falou Moisés a todos os israelitas e deu-lhes um livro, no qual estavam escritas as leis e a maneira de viver que deveriam observar. Todos consideravam-no morto, e a lembrança dos perigos que havia corrido e das amarguras que sofrera de tão boa mente por amor a eles fê-los chorar. E o sofrimento aumentou com a certeza de que lhes seria impossível tornar a encontrar um chefe igual a ele e que, não o tendo mais como intercessor, Deus já não lhes seria tão favorável. Esses mesmos pensamentos produziram neles tal arrependimento por se terem deixado levar em furor contra ele no deserto que não se podiam consolar. Ele, porém, pediu-lhes que cessassem de chorar e só pensassem em observar fielmente as leis de Deus. E a reunião assim se dissolveu.


Josefo, Flávio. História dos Hebreus (Portuguese Edition) (pp. 298-299). CPAD. Edição do Kindle.


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