A Atuação do Profeta
A Atuação do Profeta
Luminoso e Explosivo
Abraham Joshua Heschel,
“Obras realmente grandes”, escreve Flaubert, “têm um visual sereno.
Através de pequenas aberturas percebem-se precipícios; lá no fundo há escuridão, vertigem; mas acima do todo paira algo singularmente doce.
No entanto, há interlúdios quando se percebe uma eternidade de amor pairando sobre momentos de angústia; no fundo há luz, fascínio, mas acima de tudo elevam-se trovões e relâmpagos.
O uso que o profeta faz da linguagem emocional e imaginativa, concreta na dicção, rítmica no movimento, artística na forma, marca seu estilo como poético.
Longe de refletir um estado de harmonia interior ou equilíbrio, seu estilo é carregado de agitação, angústia e um espírito de não aceitação.
A preocupação do profeta não é com a natureza, mas com a história, e a história é desprovida de equilíbrio.
A declaração autêntica deriva de um momento de identificação de uma pessoa e uma palavra; seu significado depende da urgência e magnitude de seu tema.
O tema do profeta é, antes de tudo, a própria vida de um povo inteiro, e sua identificação dura mais do que um momento.
Este é o segredo do estilo do profeta: sua vida e sua alma estão em jogo no que ele diz e no que vai acontecer com o que ele diz.
É um envolvimento que ecoa. Além disso, tanto o tema quanto a identificação são vistos em três dimensões.
Não apenas o profeta e o povo, mas o próprio Deus está envolvido no que as palavras transmitem.
A declaração profética raramente é misteriosa, suspensa entre Deus e o homem; é insistente, alarmante, forçando para a frente, como se as palavras jorrassem do coração de Deus, buscando entrada no coração e na mente do homem, carregando uma convocação, bem como um envolvimento.
A grandeza, não a dignidade, é importante. A linguagem é luminosa e explosiva, firme e contingente, dura e compassiva, uma fusão de contradições.
O profeta raramente conta uma história, mas projeta eventos. Ele raramente canta, mas castiga.
Ele faz mais do que traduzir a realidade em uma chave poética: ele é um pregador cujo propósito não é a autoexpressão ou “a purgação de emoções”, mas a comunicação.
Suas imagens não devem brilhar, elas devem queimar.
O profeta tem a intenção de intensificar a responsabilidade, é impaciente com desculpas, desdenhoso com pretensão e autopiedade.
Seu tom, raramente doce ou carinhoso, é frequentemente consolador e desanimador; suas palavras são frequentemente cortantes, até mesmo horríveis — projetadas para chocar em vez de edificar.
A boca do profeta é “uma espada afiada”. Ele é “uma flecha polida” tirada da aljava de Deus.
“Ele fez com que as minhas palavras fossem cortantes como uma espada afiada e me protegeu com a sua própria mão. Ele me fez igual a uma flecha pontuda, uma arma que ele guarda até o momento de ser usada”. (Is 49:2)
Ler as palavras dos profetas é um esforço para as emoções, arrancando a consciência do estado de animação suspensa.
Heschel, Abraham Joshua. The Prophets (p. 7,8). HarperCollins. Edição do Kindle.

Comentários
Postar um comentário