As palavras de um verdadeiro Profeta
As palavras de um verdadeiro profeta estão acima de qualquer risco ou questionamento
Wayne Grudem
Havia uma outra implicação ao fato de verdadeiros profetas serem considerados como falando as próprias palavras de Deus. Se eram as palavras dele, então por definição, eram boas e puras porque vinham do próprio Deus.
Sendo assim, não há nenhum exemplo no Antigo Testamento onde a profecia de alguém tido como verdadeiro profeta seja “avaliada” ou “peneirada” de forma a separar o precioso do vil. Ao contrário, quando Samuel foi designado como profeta o “Senhor estava com ele, e fazia com que todas as suas palavras se cumprissem” (ISm 3.19). Por ser Samuel um homem de Deus (um profeta) o servo de Saul disse: “Tudo o que ele diz acontece” (ISm 9.6).
Isso significa que quando um profeta falava em nome do Senhor, se uma só profecia não se cumprisse, esse era um falso profeta (Dt 18.22). A autoridade inerente ao ofício era tão grande que a aparição de um falso profeta era algo muito desastroso, requerendo a pena de morte como castigo em virtude da falsa profecia (Dt 18.20; 13.5).
Então, o que encontramos no Antigo Testamento é que todo profeta é julgado ou avaliado, mas não todas as partes de cada profecia. As pessoas perguntavam “Este é ou não um verdadeiro profeta? Ele está ou não falando as palavras de Deus?” Eles nunca perguntavam “que parte dessa profecia é verdadeira e que parte dela é falsa? Que parte são boas e quais são ruins?” Por isso o menor vestígio de falsidade desqualificaria toda a profecia e mostraria que ele era um falso profeta. Um profeta verdadeiro que reivindicasse autoridade para suas palavras nunca poderia falar em uma profecia algumas palavras suas e algumas palavras de Deus – eram todas palavras do Senhor, ou então, ele era um falso profeta.
Desta forma, quando ficou claro que o Senhor era com Samuel e que não deixou falhar nenhuma de todas as suas palavras: “Crescia Samuel, e o SENHOR era com ele, e nenhuma de todas as suas palavras deixou cair em terra. Todo o Israel, desde Dã até Berseba, conheceu que Samuel estava confirmado como profeta do SENHOR. Continuou o SENHOR a aparecer em Siló, enquanto por sua palavra o SENHOR se manifestava ali a Samuel” (ISm 3.19-21). Assim, ficava evidente que desobedecer a Samuel ou considerar mandamentos aparentemente contraditórios, era algo errado e passível do castigo de Deus.
De modo semelhante, Micaías se dispôs arriscar toda sua reputação como profeta no cumprimento de uma profecia: “Disse Micaías: Se voltares em paz, não falou o SENHOR, na verdade, por mim. Disse mais: Ouvi isto, vós, todos os povos!” (IRs 22.28). Por se admitir que Deus era aquele que falava tudo o que um profeta falava em Seu nome era impensável que um profeta legítimo entregasse profecias com mistura de partes verdadeiras e falsas. O que um verdadeiro profeta recebesse do Senhor, ele falava. E o que era falado por meio do profeta tinha absoluta autoridade divina, estendendo-se até mesmo às palavras usadas. Mas isso não significava que um verdadeiro profeta estava imune à apostasia: “Tornou-lhe ele: Também eu sou profeta como tu, e um anjo me falou por ordem do SENHOR, dizendo: Faze-o voltar contigo a tua casa, para que coma pão e beba água. (Porém mentiu-lhe)” (IRs 13.18). A diferença que estou tentando fazer aqui diz respeito ao tipo de avaliação que se esperava fosse feita pelos ouvintes.
Se o povo de Israel pensasse que um profeta estava tão somente falando por si mesmo e não palavras de Deus, então cada frase dita por ele seria objeto de avaliação e questionamento. Os ouvintes perguntariam a cada declaração “Isto é ou não verdadeiro? Isso é ou não correto?” Esse tipo de palavra vinda de um profeta seria uma palavra de homens dentre outras palavras de homens e assim, não teria mais autoridade do que qualquer outra palavra.
O discernimento crítico seria necessário ao se ouvir todas as palavras do profeta, mesmo com alegação que o conteúdo de sua mensagem era de Deus porque erros menores poderiam ocorrer em qualquer ponto. No entanto, se o profeta alegasse estar falando as próprias palavras de Deus, um outro tipo de avaliação ocorria. Existem apenas duas possibilidades e não há meio termo. A questão então que se levanta decorre do fato de se “são estas palavras de Deus ou não? Se são, devo obedecer. Do contrário, o profeta está representando falsamente a Deus e deve morrer”: “Porém o profeta que presumir de falar alguma palavra em meu nome, que eu lhe não mandei falar, ou o que falar em nome de outros deuses, esse profeta será morto” (Dt 18.20).
Uma vez que suas palavras eram aceitas (seja de que forma fosse) como palavras de Deus, tinham um status diferente e estavam acima de quaisquer riscos ou questionamentos.
Wayne Grudem. O Dom de profecia. Carisma. Natal: 2020. p.21-23

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