O Termo Profeta na Bíblia: Um Estudo Teológico e Rabínico

 


O Termo Profeta na Bíblia: Um Estudo Teológico e Rabínico


Introdução



A figura do profeta na Bíblia é central para a compreensão da revelação divina tanto no judaísmo quanto no cristianismo. Longe de se limitar a prever o futuro, o profeta é aquele que transmite a palavra de Deus, interpreta a realidade histórica e denuncia as injustiças sociais. O termo “profeta” carrega significados linguísticos, teológicos e espirituais que merecem estudo cuidadoso, especialmente à luz dos grandes comentaristas cristãos e rabínicos.

Este artigo tem como objetivo analisar o conceito de profeta na Bíblia, destacando sua etimologia, função e importância, com base em comentaristas teológicos clássicos e modernos, bem como na tradição rabínica.


1. Etimologia do Termo

No hebraico, a palavra mais comum para profeta é נָבִיא (navi’). Sua raiz pode significar tanto “chamar” quanto “anunciar”¹. A tradução grega da Septuaginta emprega προφήτης (prophētēs), literalmente “aquele que fala em favor de”².

Von Rad observa:

“O profeta não é um vidente isolado da realidade, mas alguém que interpreta os acontecimentos históricos à luz da revelação divina.”³


2. O Profeta no Antigo Testamento

2.1 Funções

As funções do profeta incluem:

  • Ser porta-voz de Deus (Assim diz o Senhor – Jr 2:2);

  • Atuar como intercessor (Êx 32:11-14);

  • Denunciar injustiças (Am 5:12);

  • Revelar o futuro (Is 53).

Brueggemann resume:

“A tarefa profética não é anunciar um futuro inevitável, mas desestabilizar a consciência dominante e oferecer alternativas de esperança.”⁴

2.2 Moisés

Moisés é considerado o profeta por excelência (Dt 34:10).

Rashi comenta:

“Todos os outros profetas viam através de um espelho turvo, mas Moisés via através de um espelho límpido.”⁵

Matthew Henry complementa:

“Moisés foi um tipo de Cristo, o grande Profeta que havia de vir, não apenas trazendo a lei, mas sendo Ele mesmo a Lei viva.”⁶


3. O Profeta na Tradição Rabínica

O Talmude ensina que após a destruição do Primeiro Templo cessou a profecia plena, restando apenas o bat kol (eco da voz divina)⁷.

Maimônides define a profecia como:

“Um influxo divino que, por meio da perfeição do intelecto e da imaginação, desce sobre o profeta, levando-o a falar de sabedoria e conhecimento.”⁸

O Ramchal, por sua vez, escreve:

“O profeta não apenas ouve uma mensagem; ele participa da própria luz divina, e nela contempla os segredos da realidade.”⁹

Heschel descreve o profeta como alguém que vive intensamente a paixão divina:

“O profeta não é apenas um homem que fala em nome de Deus, mas alguém que vive a dor de Deus diante do pecado humano.”¹⁰


4. O Profeta no Novo Testamento

4.1 João Batista

João é apresentado como o maior entre os nascidos de mulher (Mt 11:11), marcando a transição entre Antiga e Nova Aliança.

4.2 Jesus Cristo

Cristo é reconhecido como profeta (Lc 24:19), mas é também a Palavra encarnada (Jo 1:14).

Calvino afirma:

“Cristo é chamado Profeta porque revelou plenamente os segredos do Pai e porque nele culmina toda a revelação divina.”¹¹

4.3 O Dom Profético na Igreja

Paulo ensina que a profecia na comunidade serve para edificação, exortação e consolação (1 Co 14:3).


5. O Profeta como Confrontador

A coragem é marca essencial do profeta bíblico. Elias enfrenta Acabe (1 Rs 18), Jeremias denuncia sacerdotes corruptos (Jr 23) e Amós expõe injustiças sociais.

Heschel sintetiza:

“Um homem que se sente ferido pela injustiça do mundo, porque em seu coração arde a paixão divina.”¹²


6. Profetas Verdadeiros e Falsos

Deuteronômio 18:22 estabelece critérios para discernir os falsos profetas. Jeremias critica aqueles que falam de sua própria imaginação (Jr 23:16).

Saadia Gaon explica:

“A profecia verdadeira sempre conduz à obediência à Torá, enquanto a falsa conduz à idolatria ou ao orgulho humano.”¹³


Conclusão

O termo “profeta” na Bíblia ultrapassa a visão reducionista de um adivinho. O profeta é intérprete da vontade de Deus, denunciador da injustiça, anunciador da esperança e mediador da aliança.

Na tradição judaica, a profecia é o ápice da experiência espiritual e cessa com os últimos profetas bíblicos, restando o bat kol. Na tradição cristã, a profecia culmina em Jesus Cristo, o Profeta supremo e definitivo.

Heschel conclui:

“A profecia não é apenas a revelação da mente de Deus, mas o espasmo do coração de Deus.”¹⁴

Assim, o profeta é, em sua essência, a voz viva de Deus na história.


Referências Bibliográficas

  1. BROWN, F.; DRIVER, S. R.; BRIGGS, C. Hebrew and English Lexicon of the Old Testament. Oxford: Clarendon Press, 1907.

  2. LIDDELL, H. G.; SCOTT, R. A Greek-English Lexicon. Oxford: Oxford University Press, 1996.

  3. VON RAD, Gerhard. Theologie des Alten Testaments. München: Chr. Kaiser, 1957.

  4. BRUEGGEMANN, Walter. The Prophetic Imagination. Minneapolis: Fortress Press, 1978.

  5. RASHI. Comentário a Deuteronômio 34:10. In: Mikraot Gedolot.

  6. HENRY, Matthew. Commentary on the Whole Bible. London: 1706.

  7. TALMUD BAVLI. Bava Batra 12a.

  8. MAIMONIDES. Guia dos Perplexos. Trad. Shlomo Pines. Chicago: University of Chicago Press, 1963.

  9. LUZZATTO, Moshe Chaim. Derech Hashem. Jerusalem: Feldheim, 1998.

  10. HESCHEL, Abraham Joshua. The Prophets. New York: Harper & Row, 1962.

  11. CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.

  12. HESCHEL, Abraham Joshua. The Prophets. New York: Harper & Row, 1962.

  13. SAADIA GAON. Emunot ve-Deot. Oxford: University Press, 1948.

  14. HESCHEL, Abraham Joshua. The Prophets. New York: Harper & Row, 1962.


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