O Profeta Elias
O Profeta Elias: Fogo, Zelo e Transcendência
O profeta Elias, cujo nome significa “Meu Deus é YHWH” (אֵלִיָּהוּ, Eliyahu), é uma das figuras mais emblemáticas e misteriosas de toda a tradição bíblica. Aparece de forma abrupta em 1 Reis 17, sem genealogia nem introdução, como se surgisse do nada — um homem de Deus vindo de Tisbé, em Gileade. Sua vida e ministério, repletos de sinais sobrenaturais, confrontos políticos e revelações teofânicas, fizeram de Elias um arquétipo do profeta por excelência, venerado tanto no judaísmo quanto no cristianismo.
1. Elias e o Contexto Histórico
Elias viveu durante o reinado do rei Acabe (c. 874–853 a.C.) e da rainha Jezabel, um período de profunda crise religiosa em Israel. Jezabel introduzira o culto fenício a Baal, levando Israel à idolatria (1Rs 16:31-33). Elias surge como o opositor radical desse sincretismo, proclamando a supremacia de YHWH contra os deuses estrangeiros.
Flávio Josefo, em Antiguidades Judaicas (VIII,13), descreve Elias como “um homem justo, corajoso, que desafiou os reis e os falsos profetas, e cuja fé movia o próprio céu”. Josefo ressalta o confronto com Acabe como símbolo da luta entre o profeta e o poder corrupto, um tema recorrente na história bíblica.
2. O Profeta do Fogo e da Palavra
O primeiro ato de Elias é anunciar uma seca que duraria três anos e meio (1Rs 17:1), interpretada pela tradição judaica (Midrash Rabbah, Bereshit 33:3) como castigo divino contra o culto a Baal, o “deus da chuva”. Durante esse período, Elias é sustentado milagrosamente pelos corvos junto ao ribeiro de Querite, e depois por uma viúva em Sarepta (1Rs 17:9–16), onde realiza o milagre da multiplicação da farinha e do azeite e ressuscita o filho da mulher — um dos primeiros relatos de ressurreição na Bíblia.
Na tradição rabínica (Midrash Eliyahu Zuta), esses milagres não são vistos apenas como demonstrações de poder, mas como sinais de que o profeta participa do próprio zelo de Deus pela vida e pela fidelidade à aliança. O Talmud (Sanhedrin 113a) afirma que Elias foi “zeloso pelo Nome de Deus mais do que qualquer outro homem, mas também compassivo com os que sofrem”.
3. O Confronto no Monte Carmelo
O ponto culminante do ministério de Elias é o célebre confronto com os profetas de Baal no Monte Carmelo (1Rs 18). Diante de todo o povo, Elias desafia os profetas pagãos a invocarem fogo dos céus para consumir o sacrifício. O fogo divino que desce e consome o altar de Elias é interpretado pelos Padres da Igreja como símbolo da purificação da fé.
São João Crisóstomo (Homilias sobre os Profetas, XXII) vê no episódio do Carmelo “a vitória da fé sobre a superstição, e o fogo do Espírito Santo que consome a falsidade e purifica o coração humano”. Santo Ambrósio, em De Spiritu Sancto (II,9), associa o fogo de Elias ao Espírito que descende em Pentecostes, sinal da continuidade entre o profetismo antigo e a Igreja nascente.
Após o milagre, Elias manda executar os profetas de Baal — um gesto interpretado por Orígenes (em Contra Celsum, IV,48) como a eliminação simbólica das paixões e ídolos interiores que desviam o homem de Deus. Assim, Elias é apresentado não só como profeta, mas como modelo da luta espiritual.
4. Fuga, Deserto e Teofania
Perseguido por Jezabel, Elias foge para o deserto e, em seu desespero, pede a morte (1Rs 19:4). Alimentado por um anjo, ele caminha até o Monte Horeb, o mesmo onde Moisés recebeu a Lei. Lá, experimenta uma das mais profundas revelações de Deus: o Senhor não está no vento, nem no terremoto, nem no fogo, mas na “voz suave e delicada” (qol demamah daqqah, 1Rs 19:12).
Santo Agostinho interpreta essa passagem (Cidade de Deus, XVIII,37) como símbolo da transição da antiga aliança, marcada por sinais e prodígios, para a nova revelação interior do Espírito. Para ele, “Deus se revela não apenas nas forças da natureza, mas na quietude do coração que escuta”.
A tradição judaica vê neste episódio a transformação interior de Elias — do profeta do fogo para o profeta do silêncio. Segundo o Zohar (III, 276b), Elias compreende que a presença divina não se manifesta somente em juízo, mas sobretudo em misericórdia.
5. Elias e Eliseu: A Sucessão Profética
Deus ordena a Elias que unja Eliseu como seu sucessor (1Rs 19:16). O encontro entre os dois marca o início da tradição profética contínua em Israel. Elias lança seu manto sobre Eliseu, símbolo da transmissão do espírito profético (2Rs 2:13–15). O gesto é visto pelos Padres como prefiguração da sucessão apostólica e da continuidade da missão divina.
São Gregório Magno, em suas Homilias sobre Ezequiel (II,4), comenta: “Assim como Elias passou o manto a Eliseu, Cristo deixou aos apóstolos o poder de seu Espírito para continuar a obra de salvação”.
6. A Ascensão de Elias
O encerramento da vida terrena de Elias é marcado por sua misteriosa ascensão ao céu num redemoinho, acompanhado de um carro e cavalos de fogo (2Rs 2:11). A tradição cristã vê nesse evento uma antecipação da Assunção e da glorificação final dos justos. Elias é um dos poucos personagens bíblicos que não experimentam a morte, junto com Enoque (Gn 5:24).
Flávio Josefo relata o episódio com reverência, dizendo que “Elias desapareceu da terra, levado por um poder divino, e ninguém sabe onde foi depositado” (Antiguidades, IX,2). Já o Targum de Malaquias 3:23 (equivalente a 4:5 nas traduções cristãs) afirma que Elias retornará antes do “grande e terrível dia do Senhor” — profecia retomada no Novo Testamento (Mt 17:10–13).
7. Elias no Judaísmo e no Cristianismo
No judaísmo, Elias tornou-se o mensageiro da esperança messiânica. Durante o Seder de Pessach, uma taça de vinho é reservada a ele, símbolo da vinda do Messias. No Talmud (Eruvin 43b), diz-se que Elias resolverá todas as dúvidas teológicas quando retornar.
No cristianismo, Elias reaparece no Monte da Transfiguração, ao lado de Moisés e Jesus (Mt 17:1–3). A presença dos dois grandes representantes da Lei e dos Profetas indica que Cristo cumpre e supera ambas as tradições. O Novo Testamento também identifica João Batista como aquele que vem “no espírito e poder de Elias” (Lc 1:17), preparando o caminho do Senhor.
8. Simbolismo e Herança Espiritual
A figura de Elias transcende sua época: ele é o profeta do zelo, da oração eficaz (Tg 5:17–18) e da fidelidade absoluta a Deus. É patrono da ordem carmelita, que vê nele o modelo do contemplativo ardente que busca o rosto de Deus no silêncio. Santa Teresa d’Ávila o chamava de “Pai e Inspirador dos Carmelitas”, e o Monte Carmelo tornou-se o símbolo da alma em busca da união divina.
Conclusão
Elias permanece como paradigma do profeta que une o fogo e o silêncio, a justiça e a misericórdia. Sua vida, lida à luz das tradições judaica e cristã, revela um itinerário espiritual que vai do zelo violento à intimidade divina. Por isso, tanto nas Escrituras quanto na mística posterior, Elias continua sendo o testemunho vivo do Deus que fala — ora em fogo, ora em brisa suave.
Bibliografia e Referências
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Bíblia Sagrada, 1 e 2 Reis; Malaquias 4:5; Mateus 17; Tiago 5:17–18.
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Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, Livros VIII–IX.
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Talmud Babilônico, Sanhedrin 113a; Eruvin 43b.
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Midrash Rabbah e Eliyahu Zuta.
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Zohar, Parte III, 276b.
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Orígenes, Contra Celsum, IV,48.
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Santo Ambrósio, De Spiritu Sancto, II,9.
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São João Crisóstomo, Homilias sobre os Profetas, XXII.
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Santo Agostinho, A Cidade de Deus, XVIII,37.
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São Gregório Magno, Homilias sobre Ezequiel, II,4.
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Santa Teresa d’Ávila, Livro da Vida, cap. 36.
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Walter Brueggemann, The Prophetic Imagination.
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R. Alter, The Hebrew Bible: A Translation with Commentary, Vol. 2 (W.W. Norton, 2019).
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J. Levenson, Sinai and Zion: An Entry into the Jewish Bible (HarperOne, 1987).
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