O Profeta Jeremias

 




O Profeta Jeremias: O Homem das Lágrimas e da Esperança

    O profeta Jeremias é uma das figuras mais marcantes e complexas de toda a Bíblia. Conhecido como “o profeta chorão”, sua vida e ministério estão profundamente entrelaçados com os momentos mais sombrios da história de Judá — a destruição de Jerusalém e o exílio babilônico. No entanto, por trás de sua dor e lamentação, Jeremias revela uma das teologias mais profundas da Escritura: a fidelidade de Deus mesmo em meio ao juízo, e a promessa de uma nova aliança escrita no coração do homem.


1. O Chamado e a Missão Profética

O livro de Jeremias inicia com um dos chamados mais íntimos e pessoais da Bíblia:

“Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre te santifiquei; às nações te dei por profeta” (Jeremias 1:5).

Jeremias era natural de Anatote, uma cidade sacerdotal próxima a Jerusalém. Filho do sacerdote Hilquias, ele viveu no final do século VII a.C., no reinado de Josias, e exerceu seu ministério por mais de quarenta anos, atravessando os reinados de Jeoaquim, Jeconias e Zedequias até a queda de Jerusalém em 586 a.C.

A tradição rabínica, como relata o Midrash Rabbah, interpreta o chamado de Jeremias como sinal de uma eleição divina irresistível — “a alma de Jeremias foi escolhida antes da criação para falar em tempos de destruição e consolo”. O profeta hesita, dizendo: “Ah, Senhor Deus! Eis que não sei falar, porque sou uma criança” (Jr 1:6), mas Deus o fortalece, tocando sua boca e declarando: “Eis que ponho as minhas palavras na tua boca” (1:9).

Para os Padres da Igreja, como São Jerônimo, essa cena prefigura o mistério da Encarnação — o Verbo de Deus que toca a humanidade e fala por meio dela. Jerônimo comenta que Jeremias é uma “figura de Cristo na dor e na compaixão, no sofrer pela verdade e ser rejeitado pelo seu povo”.


2. O Contexto Histórico e a Mensagem de Julgamento

Jeremias viveu num período de crise profunda. A Assíria declinava, a Babilônia ascendia, e Judá estava espiritualmente corrompida. O reinado de Josias trouxe uma reforma religiosa, mas superficial. Após sua morte, o povo voltou rapidamente à idolatria. Jeremias denunciou essa apostasia com vigor:

“Porque o meu povo cometeu dois males: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas rotas que não retêm as águas” (Jr 2:13).

Os rabinos descrevem Jeremias como “o eco do Sinai”, porque ele repetia incessantemente a Torá diante de um povo que a esquecia. O Talmude (Baba Batra 15a) afirma que Jeremias “chorava não apenas pela destruição das pedras do Templo, mas pela destruição da Palavra no coração do povo”.

Entre os teólogos modernos, Walter Brueggemann destaca que Jeremias viveu o conflito entre “tradição e realidade”, proclamando uma fé que não se sustentava mais nas instituições religiosas, mas em um relacionamento direto com Deus. Sua crítica aos sacerdotes e reis — “Pastores se tornaram estúpidos e não buscaram ao Senhor” (Jr 10:21) — antecipou o colapso moral e político que viria.


3. O Profeta das Lágrimas

Nenhum outro profeta revela seu coração com tanta intensidade quanto Jeremias. Ele não apenas fala por Deus, mas sofre com Deus. Suas “confissões” (Jr 11–20) são verdadeiros salmos de dor, onde o profeta expressa sua solidão, rejeição e até seu desejo de morrer:

“Maldito o dia em que nasci... Por que saí do ventre para ver trabalho e tristeza?” (Jr 20:14,18).

Orígenes, um dos primeiros exegetas cristãos, via nessas confissões o testemunho de uma alma que participa do sofrimento divino: “Jeremias não é apenas um homem que chora pelo povo, mas um espelho do coração de Deus, que sofre pelo pecado do homem”.

Santo Agostinho, nas Confissões, também cita Jeremias como exemplo de “tristeza santa” — o pranto que purifica e aproxima da verdade. Para ele, Jeremias representa “a alma ferida de amor divino, que geme pela corrupção do mundo”.

A tradição judaica reforça essa imagem. Segundo o Midrash Eikha Rabbah, quando Jerusalém foi destruída, Jeremias foi o único profeta que permaneceu na cidade em ruínas, chorando entre as pedras do Templo e dizendo: “Se eu tivesse olhos como fontes, choraria dia e noite” (cf. Jr 9:1). Por isso, ele é lembrado nas Lamentações, livro que a tradição atribui a ele:

“Como se senta solitária a cidade que estava cheia de gente!” (Lm 1:1).


4. Conflito com Reis e Sacerdotes

A fidelidade de Jeremias à palavra divina o colocou em conflito com os líderes de Judá. Ele foi preso, espancado, jogado numa cisterna e acusado de traição. Sua mensagem de submissão à Babilônia foi vista como deslealdade nacional. Quando o rei Zedequias o interrogou em segredo, Jeremias respondeu: “Obedecei à voz do Senhor, e tereis vida” (Jr 38:20).

Flávio Josefo, em suas Antiguidades Judaicas (X, 5), relata que Jeremias advertiu o povo com insistência, mas eles zombaram dele, e mesmo assim ele continuou profetizando “com o coração pesado e fiel até o fim”. Josefo o retrata como um homem que via o futuro com clareza e sofria por isso — “ele via a ruína e ainda assim amava o povo”.

Os Padres da Igreja compararam Jeremias a Cristo por sua rejeição. São Gregório Magno escreveu: “Assim como Jeremias foi lançado na cisterna, Cristo foi lançado na sepultura; e como Jeremias foi libertado por um estrangeiro (Ebed-Meleque), Cristo foi reconhecido por um centurião estrangeiro na cruz”.


5. A Nova Aliança

Apesar de sua mensagem de juízo, Jeremias é também o profeta da esperança. No capítulo 31, ele anuncia algo totalmente novo:

“Eis que dias vêm, diz o Senhor, em que farei uma nova aliança... não como a que fiz com seus pais... porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração” (Jr 31:31–33).

Essa passagem é central para toda a teologia bíblica. Para os rabinos, ela significa a restauração futura de Israel e o retorno à fidelidade à Torá “por amor e não por temor”. Rashi comenta que essa aliança é “eterna e interior”, pois a Palavra se tornará parte da própria alma do homem.

Para os cristãos, essa profecia é cumprida em Cristo. O autor da Carta aos Hebreus cita Jeremias 31 como o fundamento da Nova Aliança selada pelo sangue de Jesus (Hb 8:8–13). Santo Agostinho via nisso a transição do “coração de pedra” para o “coração de carne” (cf. Ez 36:26), dizendo: “Jeremias profetizou a graça que viria — não a letra que mata, mas o Espírito que vivifica”.


6. Jeremias no Exílio e o Legado Espiritual

Após a queda de Jerusalém, Jeremias foi forçado a seguir com um grupo de refugiados para o Egito (Jr 43). Lá, segundo a tradição, continuou a profetizar até ser morto por seus compatriotas. O Targum Jonathan afirma que “mesmo na morte, a voz de Jeremias não cessou, pois suas palavras permaneceram como fogo em Israel”.

Os teólogos veem Jeremias como o profeta da consciência. Karl Barth o chamou de “o mais cristológico dos profetas do Antigo Testamento”, e Abraham Heschel, em sua obra Os Profetas, descreve-o como “um homem ferido por Deus, cuja compaixão se tornou o canal da justiça divina”.

Na liturgia judaica, as Lamentações são lidas no dia 9 de Av (Tisha B’Av), quando se recorda a destruição do Templo. Já na tradição cristã, Jeremias é lembrado na Semana Santa, como figura daquele que sofre pelos pecados do povo.


Conclusão: O Profeta do Coração

Jeremias nos ensina que a verdadeira profecia não é apenas proclamar verdades, mas carregar o peso delas. Ele viveu entre a ruína e a promessa, entre as lágrimas e a esperança. Seu legado é o da fidelidade inquebrantável e da fé que sobrevive ao colapso das instituições.

Como resume Santo Efrém da Síria:

“Jeremias chorou pela cidade destruída, mas viu de longe a Cidade Eterna, que Deus edificaria nos corações dos fiéis.”

Assim, o profeta Jeremias continua ecoando através dos séculos: um testemunho vivo de que, mesmo nas cinzas da história, a palavra de Deus permanece como fogo que não se apaga.


Bibliografia essencial (selecionada):

  • Bíblia Sagrada, Livro de Jeremias e Lamentações.

  • Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, Livro X.

  • Rashi, Comentário a Jeremias 31.

  • Midrash Rabbah e Eikha Rabbah (sobre Jeremias e a destruição de Jerusalém).

  • Orígenes, Homilias sobre Jeremias.

  • Santo Agostinho, Confissões e Cidade de Deus.

  • São Jerônimo, Prefácio ao Comentário sobre Jeremias.

  • Gregório Magno, Moralia in Job.

  • Abraham J. Heschel, Os Profetas.

  • Walter Brueggemann, A Teologia de Jeremias (Theology of the Book of Jeremiah).

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