O Vidente Samuel
O Profeta Samuel: Juiz, Profeta e Fundador da Monarquia em Israel
O profeta Samuel é uma das figuras mais notáveis do Antigo Testamento, considerado o último dos juízes e o primeiro dos grandes profetas após Moisés. Ele aparece em um momento de crise e transição na história de Israel — o período entre a liderança dos juízes e o início da monarquia — e seu ministério marca uma profunda renovação espiritual e institucional. O nome “Shemuel” (שְׁמוּאֵל), significa literalmente “ouvido por Deus”, refletindo o milagre de seu nascimento e sua vocação como aquele que escuta e comunica a voz divina.
1. Nascimento e consagração ao serviço de Deus
O relato de 1 Samuel 1–2 descreve a angústia de Ana, mãe de Samuel, que suplicava a Deus um filho. Ela promete dedicá-lo inteiramente ao serviço do Senhor se sua oração fosse atendida. O nascimento de Samuel é, portanto, fruto da oração e da fidelidade (1 Sm 1:27–28).
A tradição judaica, segundo o Midrash Shmuel, considera Ana um modelo de oração fervorosa e confiante. O Talmude Babilônico (Berakhot 31b) destaca que sua forma de rezar — silenciosa, mas sincera — serviu de base para o formato posterior da Amidá, a oração silenciosa diária do judaísmo.
Desde a infância, Samuel foi entregue ao sacerdote Eli em Siló, onde a Arca da Aliança era guardada. O texto afirma: “A palavra do Senhor era rara naqueles dias; não havia visão manifesta” (1 Sm 3:1). É neste contexto que Deus chama Samuel: “Samuel! Samuel!”, ao que ele responde: “Fala, Senhor, porque o teu servo ouve” (1 Sm 3:10).
O teólogo Matthew Henry comenta que este episódio simboliza o retorno da revelação profética após um longo silêncio divino — Deus estava restaurando o canal de comunicação com o povo por meio de Samuel¹.
2. Ministério profético e atuação como juiz
Samuel tornou-se conhecido como profeta em todo Israel: “Desde Dã até Berseba, souberam que Samuel estava confirmado por profeta do Senhor” (1 Sm 3:20).
Além do ofício profético, Samuel exerceu também a função de juiz itinerante, visitando Betel, Gilgal, Mispá e Ramá (1 Sm 7:15–17), administrando justiça e ensinando a lei de Deus. Sua liderança espiritual conduziu o povo ao arrependimento e à renovação da aliança com o Senhor. Ele exortou Israel: “Se é de todo o vosso coração que voltais ao Senhor, tirai dentre vós os deuses estranhos...” (1 Sm 7:3).
A vitória sobre os filisteus em Mispá é vista como sinal da reconciliação de Deus com o povo. Em gratidão, Samuel ergueu uma pedra memorial e a chamou “Ebenézer”, dizendo: “Até aqui nos ajudou o Senhor” (1 Sm 7:12).
O teólogo John Gill interpreta Samuel como o intercessor profético por excelência, aquele que não apenas fala em nome de Deus, mas também ora em favor do povo².
3. A transição para a monarquia
Já idoso, Samuel enfrenta um novo desafio: o povo exige um rei “como todas as nações” (1 Sm 8:5). O pedido é visto como rejeição à realeza divina, e o Senhor lhe diz: “Não te rejeitaram a ti, mas a mim, para eu não reinar sobre eles” (1 Sm 8:7).
O Midrash Rabbah (Deuteronômio 17) vê esse episódio como um momento trágico na história espiritual de Israel, pois o povo abandona a teocracia para adotar uma forma humana de governo. Mesmo assim, Samuel, em obediência divina, unge Saul como primeiro rei de Israel (1 Sm 10:1).
O historiador Flávio Josefo, em suas Antiguidades Judaicas (Livro VI, cap. 4), descreve Samuel como “homem de grande piedade, que governava pelo poder divino, e não por autoridade humana”³. Segundo Josefo, Samuel institui a monarquia não por ambição, mas por obediência, e adverte Saul de que o rei deveria submeter-se à vontade de Deus.
4. O conflito com Saul e a unção de Davi
A desobediência de Saul provoca a ruptura com Samuel. Quando o rei oferece sacrifício indevido (1 Sm 13) e poupa Agague e o rebanho amalequita (1 Sm 15), Samuel o repreende com palavras eternizadas: “Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar” (1 Sm 15:22).
Santo Agostinho, em A Cidade de Deus (XVII, 7), vê nesta frase o coração da teologia profética: a verdadeira religião está na obediência e não na mera observância ritual⁴.
Deus, então, envia Samuel a Belém, à casa de Jessé, onde ele unge Davi como sucessor (1 Sm 16:1–13). A tradição cristã vê nesta unção um prenúncio do Messias, o “Ungido” por excelência. São João Crisóstomo, em suas Homilias sobre 1 Samuel, interpreta o gesto como “a transferência do Espírito de Deus para aquele que cumprirá o coração divino”⁵.
5. O caráter e a espiritualidade de Samuel
Samuel é apresentado como um modelo de integridade. Em seu discurso de despedida, desafia o povo: “De quem tomei o boi ou o jumento? A quem oprimido?” (1 Sm 12:3). Ninguém o acusa. Sua vida é exemplo de pureza e justiça, tanto que o Salmo 99:6 o compara a Moisés e Arão: “Samuel entre os que invocavam o seu nome”.
A tradição rabínica afirma que o espírito profético, que havia cessado desde Josué, voltou por meio de Samuel⁶. O Midrash Tanchuma o chama de “restaurador do profetismo”, e credita a ele a fundação das chamadas Escolas de Profetas (1 Sm 19:20), precursoras da formação espiritual em Israel.
O teólogo Karl Barth, em Church Dogmatics II, descreve Samuel como “o paradigma da revelação profética”, aquele que escuta e fala, servindo de ponte entre a palavra divina e a realidade histórica⁷.
6. Morte e legado
Samuel morreu em Ramá, sendo pranteado por todo o povo (1 Sm 25:1). Seu túmulo, segundo Flávio Josefo (Ant. Jud. VI, 13), era reverenciado, e sua memória permanecia viva entre os profetas.
O episódio da médium de En-Dor (1 Sm 28) reforça seu papel como portador da verdade divina até mesmo após a morte: o espírito de Samuel aparece para repreender Saul por sua infidelidade. Orígenes, em seus comentários, interpreta essa aparição como símbolo do juízo profético que transcende o tempo⁸.
Samuel se torna, portanto, o elo entre o período dos juízes e a era dos reis, um homem que consagra, adverte e julga — e que, sobretudo, ouve a voz de Deus.
7. Conclusão
O profeta Samuel representa uma das mais puras expressões de fidelidade a Deus. Num tempo de corrupção e idolatria, ele restaura o altar da Palavra, conduz Israel ao arrependimento e estabelece as bases da monarquia davídica.
Notas de Rodapé
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Matthew Henry, Commentary on the Whole Bible, vol. 2, comentário sobre 1 Samuel 3.
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John Gill, Exposition of the Old Testament, vol. 2, comentário sobre 1 Samuel 7.
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Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, Livro VI, cap. 4.
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Santo Agostinho, A Cidade de Deus, Livro XVII, cap. 7.
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São João Crisóstomo, Homilias sobre 1 Samuel, Homilia V.
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Midrash Tanchuma, Parashá Va’era, seção 6.
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Karl Barth, Church Dogmatics, Vol. II, Part 2, §33.
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Orígenes, Homilias sobre o Primeiro Livro de Samuel, cap. 12.
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