O Homem de DEUS e o profeta Velho
O Profeta de Judá e o Rei Jeroboão: A Tragédia da Desobediência (1 Reis 13)
O capítulo 13 do Primeiro Livro dos Reis é um dos relatos mais enigmáticos e teologicamente ricos de toda a Escritura. Ele narra a história de um “homem de Deus”, um profeta vindo de Judá, enviado por Deus para confrontar o rei Jeroboão em Betel. Este episódio acontece em um momento crítico da história de Israel: após a divisão do reino sob Roboão e Jeroboão, quando o culto legítimo em Jerusalém foi substituído por santuários idólatras no norte.
1. Contexto histórico e teológico
Segundo o relato bíblico, Jeroboão, temendo que o povo voltasse à casa de Davi, erigiu dois bezerros de ouro — um em Betel e outro em Dã — e disse ao povo: “Eis aqui os teus deuses, ó Israel” (1 Rs 12:28). Este ato foi visto pelos profetas e cronistas bíblicos como uma grave apostasia. O historiador Flávio Josefo, em Antiguidades Judaicas (Livro VIII, cap. 8), descreve Jeroboão como “um rei audacioso que, em sua vaidade, ousou rivalizar com o culto ordenado por Deus em Jerusalém”.
É neste cenário de idolatria e ruptura espiritual que surge o “homem de Deus”, sem nome, vindo de Judá. A ausência de seu nome — algo notado por Agostinho de Hipona e Jerônimo — simboliza, segundo eles, o fato de que o verdadeiro profeta age não em nome próprio, mas em nome do Senhor.
2. A mensagem profética e o sinal do altar
Ao chegar a Betel, o profeta proclama: “Altar, altar! Assim diz o Senhor: Eis que nascerá um filho à casa de Davi, cujo nome será Josias; e sobre ti sacrificará os sacerdotes dos altos” (1 Rs 13:2). Essa profecia se cumpre quase trezentos anos depois (2 Rs 23:15-20), quando o rei Josias destrói o altar de Betel. O teólogo Matthew Henry, em seu Comentário Expositivo, observa que a menção do nome de Josias séculos antes é uma das mais impressionantes predições da Escritura, confirmando a soberania de Deus sobre a história.
Como sinal imediato, o altar se fende, e as cinzas se derramam — uma prova visível de que a palavra do profeta era verdadeira. O gesto do rei Jeroboão, estendendo a mão para prender o profeta, resulta em castigo instantâneo: sua mão seca. Este gesto, interpretado por João Crisóstomo, representa a impotência do poder humano diante do juízo divino. Somente após pedir a intercessão do profeta, Jeroboão tem sua mão restaurada — um sinal de que Deus, ainda que justo, é também misericordioso.
3. A ordem divina e a obediência incompleta
O profeta havia recebido instruções claras: não comer pão, nem beber água naquele lugar, nem voltar pelo mesmo caminho (1 Rs 13:9). Estas ordens, segundo Orígenes (Homilias sobre os Reis), simbolizam a separação absoluta do profeta em relação à idolatria. Comer com os habitantes de Betel significaria comunhão com sua impiedade. A desobediência, portanto, não seria apenas um erro moral, mas uma quebra de fidelidade simbólica com Deus.
A tradição judaica, conforme o Midrash Rabá e o Targum Yonatán, vê nesta ordem um teste de obediência. O profeta é apresentado como alguém justo, mas cuja missão era também pedagógica — uma lição para Israel: o verdadeiro servo de Deus deve obedecer mesmo quando não entende completamente o motivo.
4. O profeta velho e o engano
É neste ponto que surge outro personagem misterioso: um profeta velho que vivia em Betel. O texto o descreve como alguém que, ao ouvir o relato dos filhos, vai ao encontro do homem de Deus e o engana, dizendo que um anjo lhe ordenara trazer o profeta de volta para comer e beber (1 Rs 13:18). O homem de Deus cede e retorna com ele — uma trágica escolha que lhe custará a vida.
Muitos intérpretes discutem o caráter do profeta velho. Flávio Josefo afirma que ele “mentiu, movido por inveja e curiosidade” (Ant. Jud. VIII.9.1). Teodoreto de Ciro sugere que ele era um profeta outrora fiel, mas que se acomodara à idolatria de Betel. Já Agostinho, em A Cidade de Deus (Livro XVIII), vê neste episódio uma advertência contra falsos mestres que distorcem a revelação divina, mesmo com aparência de piedade.
A tradição rabínica traz outra nuance. O Midrash Kohelet Rabá sugere que o profeta velho não agiu por malícia, mas para testar se o jovem homem de Deus permaneceria fiel à sua palavra. No entanto, a própria Escritura deixa claro que a mentira resultou na morte do profeta novo — mostrando que a obediência à voz de Deus não pode ser substituída por revelações contraditórias, ainda que vindas de um suposto profeta.
5. A punição e o simbolismo do leão
Enquanto retornava pelo caminho, um leão o encontrou e o matou. O texto enfatiza que o leão e o jumento permaneceram junto ao corpo, sem devorá-lo — um detalhe que, segundo Calvino, em seu Comentário sobre 1 Reis, mostra que o evento foi miraculoso, não natural: “Nem o jumento fugiu, nem o leão comeu, pois ambos estavam sob o comando do mesmo Senhor que julga e preserva”.
Para os rabinos, esse leão representa o juízo divino que não age por ira cega, mas por propósito moral. O Midrash Rabá sobre Reis comenta que o leão permaneceu guardando o corpo como testemunha pública de que Deus é justo e que a desobediência, mesmo pequena, tem consequências sérias.
Orígenes interpreta o leão como símbolo de Satanás, que tem poder sobre aqueles que se afastam da obediência divina. Contudo, ele ressalta que o leão, nesse caso, age como instrumento de Deus — um paradoxo que ecoa a ideia paulina de que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8:28).
6. O profeta velho e o enterro
Curiosamente, o profeta velho vai buscar o corpo do homem de Deus, lamenta sua morte e o enterra em seu próprio túmulo, pedindo para que, quando morresse, fosse sepultado junto dele (1 Rs 13:31). Este gesto, segundo Jerônimo, é uma confissão tardia e um reconhecimento de culpa. O velho profeta percebe que a palavra do homem de Deus era verdadeira e procura associar-se a ele, mesmo após sua morte.
A tradição judaica vê nisso um ato de arrependimento. O Talmude Babilônico (Sotá 13a) afirma que Deus permitiu que os ossos dos dois profetas descansassem juntos para mostrar que a misericórdia divina alcança até os que erram, desde que reconheçam sua falha.
7. Significado espiritual e teológico
O relato de 1 Reis 13 não é apenas uma narrativa moral; é uma teologia da obediência e da fidelidade à revelação divina. Matthew Poole, em seu comentário, resume: “A história nos ensina que nenhuma autoridade humana ou angelical deve ser preferida à voz que procede da boca do Senhor”.
Para John Gill, o profeta de Judá representa os verdadeiros servos de Deus, chamados a confrontar o pecado mesmo em ambientes hostis; já o profeta velho representa a falsa religião, disfarçada de tradição e experiência.
Os Pais da Igreja viram neste texto um tipo de Cristo: o homem de Deus vindo de Judá (símbolo do Messias) que denuncia o altar falso e cujas palavras se cumprem integralmente. Agostinho e Crisóstomo enxergaram no altar fendido o símbolo do coração humano endurecido, que se parte quando confrontado pela palavra de Deus.
8. Conclusão
O episódio do profeta de Judá e o profeta velho é um drama sobre verdade, engano e fidelidade. Ele nos recorda que obedecer parcialmente é desobedecer; e que até os servos de Deus mais fiéis podem cair, se não perseverarem até o fim.
No fim, o verdadeiro protagonista não é o homem de Deus, nem o profeta velho, nem Jeroboão — é o Deus que fala e cumpre Sua palavra, que exige obediência e demonstra misericórdia, e cuja justiça se manifesta mesmo através das tragédias humanas.
Bibliografia e Referências
-
Bíblia Sagrada, 1 Reis 13.
-
Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, Livro VIII, cap. 8–9.
-
Agostinho de Hipona, A Cidade de Deus, Livro XVIII.
-
Orígenes, Homilias sobre os Reis.
-
João Crisóstomo, Homilias sobre o Antigo Testamento.
-
Jerônimo, Comentário sobre os Reis.
-
Teodoreto de Ciro, Comentário sobre os Livros Históricos.
-
Matthew Henry, Comentário Expositivo da Bíblia (1 Reis 13).
-
John Gill, Exposition of the Old Testament.
-
Matthew Poole, Commentary on the Holy Bible.
-
João Calvino, Comentário sobre 1 Reis.
-
Midrash Rabá, Kohelet Rabá e Midrash sobre Reis.
-
Talmude Babilônico, Sotá 13a.
-
Targum Yonatán sobre Reis.
Comentários
Postar um comentário