O Profeta Jonas
Jonas: o profeta relutante e a misericórdia de Deus
O livro de Jonas, pertencente ao grupo dos Doze Profetas Menores no cânon hebraico, destaca-se por sua forma narrativa singular. Diferente dos demais livros proféticos, seu foco central não são os oráculos, mas a história do próprio profeta. Segundo a narrativa bíblica (Jonas 1–4), Jonas, filho de Amitai, recebe de Deus a ordem de ir a Nínive — capital do Império Assírio — proclamar juízo contra sua maldade. Em vez de obedecer, Jonas foge na direção oposta, embarcando para Társis. Essa fuga é interpretada por muitos teólogos como um conflito interno entre a justiça divina e a misericórdia divina.
1. O Contexto Histórico
Os assírios, conhecidos pela crueldade militar, eram temidos no antigo Oriente Próximo. O historiador Donald Wiseman observa que os registros assírios descrevem com orgulho seus métodos violentos: empalação, decapitação e deportações em massa. Isso explica o horror de Jonas ao ser enviado a Nínive: não se tratava apenas de um povo estrangeiro, mas um inimigo histórico de Israel. O historiador Flávio Josefo, em sua obra Antiguidades Judaicas (IX,10), afirma que Jonas foi um profeta do tempo de Jeroboão II (séc. VIII a.C.), o que coincide com 2 Reis 14:25, onde Jonas é mencionado como profeta de Israel.
2. A Fuga do Profeta e a Tempestade
A fuga de Jonas possui forte simbolismo teológico. Santo Agostinho entende que Jonas representa o pecador que tenta escapar ao chamado divino, enquanto o mar simboliza o mundo caótico onde o ser humano se perde quando foge de Deus. A tempestade que cai sobre o navio não seria somente uma punição, mas uma pedagogia divina. João Crisóstomo observa que Deus não destrói Jonas, mas o persegue com amor, pois “foge o homem, mas nunca foge de Deus”.
A tradição rabínica também se aprofunda no episódio. O Midrash Jonah comenta que, ao descer ao porão do navio, Jonas não apenas se escondia dos marinheiros, mas tentava, simbolicamente, “descer” de Deus. Os rabinos do Talmude (Tratado de Sotá 10b) registram uma leitura moral: “Todo aquele que foge de seu dever, sua própria fuga o cerca”.
3. O Peixe Grande: Milagre, Alegoria ou Sinal?
O episódio do grande peixe (Jonas 1:17) é um dos pontos mais discutidos. Orígenes, no século III, via o evento como um tipo profético da ressurreição de Cristo, seguindo Mateus 12:40, onde Jesus afirma: “assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim estará o Filho do Homem no coração da terra”. Já Tertuliano reforça o aspecto literal do milagre para atestar o poder criador de Deus.
A tradição judaica entende que o peixe foi preparado especialmente por Deus (Midrash Rabbah), e alguns rabinos afirmam que Jonas, em seu interior, pôde ver as profundezas da criação, como uma revelação do Sheol. O peixe não seria punição, mas proteção: Deus o preserva para que cumpra sua missão.
4. A Conversão de Nínive
O ponto central do livro é a conversão total de Nínive. A cidade, descrita como grande (três dias de jornada), responde à pregação com jejum, arrependimento e humildade — até mesmo os animais jejuam (Jonas 3:7). Teólogos como Karl Barth observam que Jonas é um dos textos mais radicais sobre a soberania da graça: Deus oferece arrependimento a um povo pagão, sem exigir circuncisão, lei ou aliança prévia.
Os Pais da Igreja interpretaram Nínive como símbolo da humanidade gentil que receberia o evangelho. Irineu de Lyon afirma que Jonas estava prefigurando o anúncio de Cristo aos povos não judeus. Para Agostinho, a conversão de Nínive prova que “a misericórdia de Deus sempre supera a ira, quando encontra um coração contrito”.
5. A Ira de Jonas e a Pedagogia da Planta
O capítulo final é a chave do livro. Jonas fica indignado porque Deus perdoa Nínive. Ele ora dizendo: “Eu bem sabia que és Deus compassivo e misericordioso, tardio em irar-se” (4:2). Nota-se que Jonas não fugiu por falta de fé na missão, mas por excesso de fé na misericórdia de Deus. Jonas não queria que Nínive fosse salva.
A planta que nasce para lhe dar sombra (e depois morre) é interpretada por Jerônimo como o espelho da idolatria interior de Jonas. Ele se compadece da planta, mas não se compadece de 120 mil pessoas. A antropologia bíblica aqui revela o coração humano como limitado em compaixão — em contraste com o Deus de Israel, que se preocupa não apenas com Israel, mas com “os homens e até os animais” (4:11).
A tradição rabínica lê Jonas como o profeta que ama Israel, mas não compreende o amor universal de Deus. No Pirkei deRabbi Eliezer, afirma-se que Jonas, no fim, reconhece que “a misericórdia é a lei maior da Torá”.
6. Jonas como Símbolo Escatológico e Cristológico
Para o cristianismo primitivo, Jonas é mais citado no Novo Testamento que qualquer outro profeta menor, devido ao “sinal de Jonas”. Jesus não apenas o cita como figura de sua ressurreição (Mt 12:40), mas também como modelo de julgamento contra uma geração incrédula: “Os homens de Nínive se levantarão no juízo contra esta geração” (Mt 12:41).
Tomás de Aquino resume: Jonas é tipo de Cristo em três pontos — sua descida (morte), seu tempo no peixe (sepultura) e sua pregação que salva gentios (evangelho às nações).
7. Jonas e a Teologia da Missão
Teólogos modernos, como Jacques Ellul e Walter Brueggemann, veem Jonas como manifesto contra o exclusivismo religioso. Brueggemann diz: “Jonas quer um Deus tribal; Deus quer uma humanidade inteira”. O livro, segundo eles, combate a ideia de que Deus pertence a um povo. Ele é o Criador do mar, da terra, de Israel, de Nínive — e até do peixe.
Conclusão
O livro de Jonas é, antes de tudo, uma crítica ao coração endurecido, não dos pagãos, mas dos religiosos. Sua mensagem, universal e eterna, mostra um Deus que persegue o pecador para salvá-lo, que busca o inimigo, que ouve a oração nas profundezas, e que prefere perdoar a destruir. Jonas é um espelho: nele vemos nossa resistência a amar quem Deus ama.
📖 1. Fontes Bíblicas
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Bíblia Hebraica / Antigo Testamento
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Livro de Jonas, caps. 1–4
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2 Reis 14:25
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Novo Testamento
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Mateus 12:39–41; 16:4
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Lucas 11:29–32
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⛪ 2. Pais da Igreja
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AGOSTINHO, Santo. Enarrationes in Psalmos; De Civitate Dei.
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JOÃO CRISÓSTOMO, Homilias sobre Jonas.
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ORÍGENES, Homiliae in Ionam.
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TERTULIANO, De Resurrectione Carnis.
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JERÔNIMO, Comentário sobre Jonas.
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IRINEU DE LIÃO, Contra as Heresias.
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TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea (comentário sobre Mateus 12:40).
📚 3. Teólogos e estudiosos cristãos
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BARTH, Karl. Church Dogmatics, vol. II.
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BRUEGGEMANN, Walter. The Prophetic Imagination.
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ELLUL, Jacques. Jonah: An Essay in Biblical Interpretation.
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CALVINO, João. Comentário sobre Jonas.
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HANS WOLFF, Joel and Amos; Obadiah and Jonah: A Commentary (Old Testament Library).
🏺 4. Historiadores
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JOSEFO, Flávio. Antiguidades Judaicas, Livro IX.
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WISEMAN, Donald J. The Assyrians.
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LIVERANI, Mario. Antigo Oriente: História, Sociedade e Economia.
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KITCHEN, Kenneth A. On the Reliability of the Old Testament.
✡️ 5. Tradição Judaica / Rabínica
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Midrash Jonah.
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Midrash Rabbah (especialmente Jonah Rabbah).
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TALMUDE Babilônico, Tratado Sotá 10b.
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Pirkei deRabbi Eliezer, cap. 10.
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RASHI (Rabi Shlomo Yitzhaki), comentário ao Livro de Jonas.
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MAIMÔNIDES, Guia dos Perplexos (passagens sobre profecia).
📝 6. Obras modernas especializadas no livro de Jonas
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SASSON, Jack M. Jonah: A New Translation with Introduction and Commentary (Anchor Bible).
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ZIMMERLI, Walther. The Law and the Prophets: Old Testament Studies.
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TOWNER, W. Sibley. Jonah: Interpretation Commentary.
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