Quem foi Melquisedeque
Melquisedeque: Rei, Sacerdote e Mistério nas Escrituras
A figura de Melquisedeque emerge na Bíblia de maneira breve, porém profundamente impactante. Ele aparece inicialmente em Gênesis 14:18–20, no encontro com Abraão, e depois é retomado poeticamente em Salmos 110 e teologicamente aprofundado em Hebreus 5–7. Embora suas menções sejam escassas, o peso teológico, simbólico e histórico de sua figura é extraordinário. Melquisedeque é descrito como rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo (El Elyon), duas funções que o tornam singular no mundo bíblico e o colocam no centro de debates judaicos e cristãos ao longo dos séculos.
1. Melquisedeque no Relato Bíblico
O contexto de Gênesis 14 narra a vitória de Abraão sobre os reis que haviam capturado Ló. Ao retornar, Abraão é recebido por Melquisedeque, que traz “pão e vinho” — gestos de hospitalidade, celebração e, segundo alguns teólogos, de caráter cultual. Ele abençoa Abraão dizendo: “Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, possuidor dos céus e da terra.” Abraão, por sua vez, lhe oferece o dízimo de tudo, reconhecendo sua autoridade sacerdotal.
A menção em Salmos 110:4, atribuída a Davi, amplia o significado desse personagem: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.” Aqui, Melquisedeque torna-se o modelo de um sacerdócio eterno, diferente do sacerdócio levítico, sujeito a linhagens e limitações temporais.
Finalmente, a carta aos Hebreus interpreta Melquisedeque como um protótipo de Cristo. Hebreus 7 destaca aspectos simbólicos dele: “sem pai, sem mãe, sem genealogia”, expressão que muitos estudiosos entendem não literalmente, mas como ausência de registro genealógico — algo raro em Gênesis, livro que valoriza profundamente descendências. O autor usa essa ausência literária para apresentar Melquisedeque como figura atemporal, aponta para um sacerdócio superior, pré-levítico e eterno.
2. Interpretação Judaica e Tradição Rabínica
A cultura judaica sempre se fascinou com essa figura misteriosa. O Targum de Jerusalém identifica Melquisedeque com Sem, filho de Noé, o que explicaria sua longevidade e sabedoria. Rabinos influentes, como Rashi, sustentam essa interpretação, baseando-se na continuidade da fé monoteísta anterior a Abraão.
Outras correntes judaicas, entretanto, veem Melquisedeque como um rei-sacerdote cananeu que, apesar do contexto, teria se mantido fiel ao Deus verdadeiro. O nome Melquisedeque (Malki-Tzedek) significa “meu rei é justiça” ou “rei de justiça”, e “Salém” é interpretado como “paz”. Assim, ele se torna símbolo de justiça e paz, valores centrais no ideal messiânico judaico.
No Rolo de Melquisedeque (11Q13) encontrado em Qumran, sua figura assume contornos ainda mais elevados. Ali, Melquisedeque aparece como um ser celestial, que participa do juízo divino e da libertação final. Essa visão apocalíptica provavelmente influenciou a leitura cristã posterior, especialmente o autor de Hebreus.
3. O Testemunho de Flávio Josefo
O historiador judeu Flávio Josefo, em Antiguidades Judaicas (Livro I), menciona Melquisedeque e o descreve como um rei justo que estabeleceu o culto a Deus em Salém, identificada como a futura Jerusalém. Josefo destaca que Melquisedeque “era estimado por Deus” e que sua realeza estava vinculada à verdadeira adoração, o que o fez digno de receber Abraão.
Josefo não o interpreta como Sem, mas como uma figura histórica real, um governante cananeu distinto pela sua devoção a Deus. Sua visão é valiosa porque mostra como o judaísmo do século I interpretava Melquisedeque de modo reverente, porém natural, sem atribuições sobrenaturais excessivas — essa elevação viria mais fortemente com os essênios e o cristianismo.
4. Os Pais da Igreja e a Tradição Cristã
A interpretação cristã sobre Melquisedeque é amplamente moldada pela carta aos Hebreus. Os Pais da Igreja expandem essa ideia:
Tertuliano vê Melquisedeque como um símbolo claro de Cristo, devido ao pão e vinho apresentados, que para ele antecipam a Eucaristia.
Jerônimo afirma que Melquisedeque é “figura de Cristo”, especialmente por seu sacerdócio eterno e por não pertencer à linhagem levítica.
Agostinho sustenta que ele representa a união perfeita entre realeza e sacerdócio, algo que só Cristo realiza plenamente. Para Agostinho, a oferta de pão e vinho aponta para o sacrifício espiritual futuro.
Nenhum dos Pais o identifica como Sem. A tendência cristã é ver Melquisedeque como tipo, sombra ou prefiguração do Messias — não como o Messias, mas como alguém cuja missão aponta para Ele.
5. Teólogos Contemporâneos
Teólogos modernos continuam explorando a densidade da figura:
Gerhard von Rad vê Melquisedeque como um “resíduo” de tradições cananeias incorporadas à fé de Israel, mas reinterpretadas para afirmar o monoteísmo.
Walter Brueggemann destaca o papel literário de Melquisedeque como alguém “de fora” da família de Abraão que reconhece o Deus verdadeiro, mostrando que o plano de Deus não está limitado ao povo hebreu.
F. F. Bruce enfatiza a leitura cristã: Melquisedeque é usado em Hebreus como argumento para mostrar a superioridade do sacerdócio de Cristo, que não depende de genealogia, mas da vida eterna.
6. Significado Teológico
Melquisedeque encarna três dimensões essenciais:
Realeza justa – “rei de justiça” e “rei de paz”.
Sacerdócio eterno – independente de linhagem humana.
Universalidade – reconhece e serve ao Deus Altíssimo antes mesmo da formação de Israel.
Para o judaísmo, ele demonstra que a revelação divina já estava presente entre povos não israelitas. Para o cristianismo, ele prefigura o sacerdócio perfeito de Cristo, fundamento da teologia da mediação.
Conclusão
Melquisedeque permanece uma das figuras mais enigmáticas e ricas da Bíblia. Seu aparecimento breve, mas decisivo, estabelece um modelo de sacerdócio superior, uma realeza baseada em justiça e paz e uma ponte entre Abraão e o culto ao Deus verdadeiro. Da tradição judaica aos Pais da Igreja, de Josefo aos teólogos contemporâneos, sua figura continua inspirando reflexões sobre o caráter universal da fé, a natureza do sacerdócio e o ideal messiânico.
Bibliografia e Referências
1. Fontes Bíblicas Primárias
Bíblia Hebraica / Antigo Testamento
Gênesis 14:18–20
Salmos 110
Novo Testamento
Hebreus 5–7
2. Literatura Judaica e Tradições Antigas
Targum de Jerusalém (Yerushalmi) – Comentário aramaico ao Pentateuco.
Targum Onkelos – Versão aramaica tradicional do texto bíblico.
Midrash Rabbah (Bereshit Rabbah) – Comentários narrativos sobre Gênesis.
Rashi (1040–1105) – Comentários sobre Gênesis 14 e Salmo 110.
Rolos de Qumran – Manuscrito 11Q13 (11QMelchizedek) – Texto da comunidade de Qumran sobre a figura de Melquisedeque.
Mishná e Talmude – Discussões relacionadas à figura de Melquisedeque e ao sacerdócio não-levítico.
3. Historiador Judaico Antigo
Flávio Josefo
Antiguidades Judaicas, Livro I, especialmente capítulos 10–11.
(Particularmente a seção onde Josefo identifica Melquisedeque como rei de Salém e sacerdote estimado por Deus.)
4. Pais da Igreja
Tertuliano – Adversus Marcionem, Livro III (interpretação tipológica e eucarística de Melquisedeque).
Jerônimo (Eusébio Sofrônio Jerônimo) – Comentário ao Salmo 110; Epístolas (passagens sobre o sacerdócio de Melquisedeque).
Agostinho de Hipona –
A Cidade de Deus, Livro XVI, capítulos 22–25 (Melquisedeque como figura que prefigura Cristo).
Enarrationes in Psalmos (especialmente o Salmo 110).
Orígenes – Homilias sobre o Gênesis (interpretação alegórica de Melquisedeque como tipo de Cristo).
Clemente de Alexandria – Stromata, Livro IV (comentários sobre sacerdócio e simbolismo).
5. Teólogos Modernos e Estudos Contemporâneos
Gerhard von Rad – Old Testament Theology, Vol. 1 (discussões sobre tradições cananeias e gênese do sacerdócio).
Walter Brueggemann –
Genesis (Interpretation Commentary Series).
Theology of the Old Testament (visão universal do Deus de Israel e figuras não israelitas).
F. F. Bruce – The Epistle to the Hebrews (NICNT).
William Lane – Hebrews (Word Biblical Commentary).
John Goldingay – Old Testament Theology.
Moshe Weinfeld – Estudos sobre Canaã, Salém e tradições sacerdotais antigas.
Jacob Milgrom – Pesquisas sobre sacerdócio e pureza no Antigo Testamento.
6. Estudos Acadêmicos Específicos sobre Melquisedeque
J. A. Fitzmyer – Artigos sobre 11QMelchizedek e o papel messiânico atribuído a Melquisedeque em Qumran.
Geza Vermes – The Complete Dead Sea Scrolls in English.
Philip E. Hughes – A Commentary on the Epistle to the Hebrews.
Harold Attridge – Hebrews (Hermeneia).
7. Obras de Referência
Enciclopédia Judaica (Jewish Encyclopedia) – Artigo “Melchizedek”.
The Anchor Yale Bible Dictionary, Vol. 4 – Verbete “Melchizedek”.
Lexham Bible Dictionary – Verbete “Melchizedek”.
International Standard Bible Encyclopedia (ISBE) – “Melchizedek”.
Observações Metodológicas
As obras acima foram utilizadas para fundamentar:
A caracterização bíblica (Gênesis, Salmos, Hebreus);
A interpretação judaica antiga (Targuns, Midrash, Rashi, Qumran);
A posição de Flávio Josefo (história judaica do século I);
A compreensão cristã patrística (Pais da Igreja);
A leitura teológica moderna (von Rad, Bruce, Brueggemann, etc.).
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